segunda-feira, 20 de abril de 2026

O CAÇADOR DE COMUNISTAS

 Dino de Alcântara


 

 

A Stanislaw Ponte Preta 

 Corria o ano de 1971, com tensões de lado a lado (tanto da situação quanto da oposição), quando o capitão Ezequiel fez chegar ao coronel Cantagalo, seu superior,  que havia certamente um grupo de comunistas montando um aparelho no prédio em que ele morava com sua linda esposa, a dona Mariquinhas, ainda na casa dos vinte anos (ele já um cinquentão). De pronto, mesmo com uma série de atividades em Brasília, para onde ia duas vezes por mês, e em São Paulo, o coronel Cantagalo passou a vigiar melhor o condomínio em que morava, na região de Botafogo.

Certamente nem a esposa poderia saber. Por ser tão nova, poderia dar com a língua nos dentes e contar os detalhes da operação às vizinhas. Não. O melhor seria sigilo total. Nem mesmo no quartel deveria contar. Trataria de desmontar o aparelho comunista e prender todos.

E assim passou a anunciar viagens e se hospedar num hotelzinho das proximidades para investigar.

Viu uma noite um estranho, com um chapéu e um roupa cobrindo até o pescoço,   entrando no prédio.  Aproximou-se, entrou, apresentando as credenciais militares e disfarçado, com chapéu e barba postiça, para não dar bandeira. Entrou no elevador, procurou em vários andares. Nada. Nem sinal do suspeito. 

A busca se repetiu por outras noites. O coronel Cantagalo encenava viagens, mas ficava no hotelzinho, para circular, disfarçado nos arredores. Não queria prender alguém sem ter certeza de que era um comunista. Já detivera um capitão por ter  comedido a injustiça de prender um professor de literatura cujo único crime fora carregar o livro A Revolução dos Bichos. Não. Precisava encontrar o aparelho dos comunistas. Desarticular todo o grupo e prendê-los. E faria tudo isso sozinho. Com tal feito, ganharia uma promoção.

Mas o tempo passava e nada de descobrir o esconderijo do grupo terrorista.

No final do ano, no início de dezembro, já com três meses de intensas investigações, não podendo mais protelar suas funções em Brasília, precisou viajar para assuntos estritamente militares.

Dona Mariquinhas arrumou-se toda, passou um batom que havia ganhado de presente do marido, o coronel Cantagalo, saiu do apartamento, tomou a escada, subiu um andar, e bateu no apartamento 617.

No apartamento, alugado pelo tenente Sérgio Ponte Preta, o jovem oficial, com trajes civis, esperava a sua amada. Na mesa, além de alguns doces, refrigerantes, café, chocolate e biscoitos, havia um vaso com flores vermelhas.

O “suspeito” e sua amada, dona Mariquinhas, depois do repasto, foram tramar a revolução contra o governo militar na alcova secretamente preparada para tal fim.

 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

O BOLO OU UMA ATIVIDADE ESCOLAR

 

Dino de Alcântara

Sátira Política 

 

A Professora Marta, exausta do trabalho docente, largou os livros e o notebook sobre a mesa e pediu uma narrativa sobre temas variados.

Pela cara dos alunos, a ideia foi recebida de forma péssima, mas... acabaram tendo que fazer. Ia valer pontos na próxima a prova.

Todos odiavam o tal do tema livre. Era a pior coisa que os professores pediam.

No entanto, um aluno, o Ricardo, com cara de insubmisso, meteu a caneta Bic sobre as linhas de uma folha do caderno de matéria e mandou brasa.

Colocou uma família de 7 pessoas, sendo o pai e a mãe e 5 filhos.

Após falar de cada um, trouxe à tona um episódio: um bolo feito com carinho pela mãe e posto na geladeira para a Sexta-Feira da Paixão, dia em que iam receber a avó materna, daí o cuidado da mãe, pois se fosse a avó paterna... cale-te boca.

Feito o bolo na quinta-feira, virou logo motivo de adoração. Todos ali ficaram com água na boca, inclusive o pai.

Todos foram dormir entre 23 horas e 1 hora da madrugada, já na sexta-feira.

Ao acordar, lá pelas oito horas, a mãe levou um susto: o bolo estava quase todo comido. Um pedaço ainda estava na forma, dentro da geladeira. Ela, com raiva, pegou, cortou no meio, tirou um pedaço e comeu. Ficou mais furiosa, ao saber que, gelado, estava muito melhor do que imaginava.

Foi ao quarto, perguntou ao marido se ele tinha comido o bolo. Ele, rindo, disse que tinha tirado um pouquinho só, porque os pequenos, quase todos, tinham comido sozinhos. Ela disse que botaria a mão no fogo pelo mais velho, ao que o pai riu e disse que esse tinha comido o pedaço maior.

Já quase na hora da avó chegar, o filho caçula, que por sinal se atesta com fé que não havia provado do bolo, porque respeitava as ordens da mãe, o filho foi tirar o último pedaço do bolo e colocar num pequeno depósito e, assim, esconder dos glutões da casa, deixando ao menos um naquinho da guloseima para que a visita experimentasse.

Mas, ao fazer isso, a mãe, que estava à espreita, viu tudo. Cresceu pra cima do filho, de quem gostava, mas tinha por ele um amor bem menor do que tinha pelos outros. Tomou-lhe o pedaço, guardou dentro da forma e voltou-se para o “ladrão”, dando-lhe dois cascudos. Os outros viram e atestaram que era ele mesmo o ladrão, que ninguém ali havia comido coisa nenhuma, que o criminoso merecia todas as bordoadas. O pai ainda tentou contornar, mas a mãe pegou uma pequena corda e desferiu-lhe umas cinco ou seis lapadas nas costas e nas pernas. Ele, segundo ela, deveria criar vergonha na cara.

O menino, chorando, ganhou o quarto.

Quanto a avó chegou, trouxe presentes para quase todos. Esqueceu, é claro, do neto ladrão.

...

Ao entregar, primeiro que os outros, a sua narrativa, a professora, mesmo com muita preguiça leu... E, atordoada com o conto. Sim, era um conto, perguntou ao menino se ele tinha tirado aquilo da I.A.

Ele respondeu que nem celular estava levando para a escola. Disse que havia feito de sua cabeça, tomando aqui e ali alguns posts de Instagram e conversas com o pai em casa.

Atônita pela leitura, notou algo estranho: não tinha título.

Indagado, Ricardo pensou um pouco e mandou que ela mesma escrevesse o título.

Perguntado qual era, respondeu sem titubear:

 A JUSTIÇA BRASILEIRA

O CAÇADOR DE COMUNISTAS

  Dino de Alcântara     A Stanislaw Ponte Preta   Corria o ano de 1971, com tensões de lado a lado (tanto da situação quanto da oposição...