Dino de Alcântara
ANTES
Um passageiro chega à
rodoviária do Cujupe. Desce de uma van. Dirige-se ao guichê de venda de
passagem.
– Senhora, uma passagem para
este ferry que sai agora.
Do lado de dentro, uma
atendente destaca uma passagem de um bloco, como se fosse um carnê com cem bilhetes.
– São cinco reais, moço.
Ele entrega uma nota de cinco
reais e recebe o bilhete da passagem.
Sai. Chega outro passageiro.
Tempo de atendimento: 10 segundos.
Agora

O mesmo passageiro chega à
rodoviária do Cujupe. Desce de um micro-ônibus. Dirige-se ao guichê de venda de
passagem.
São 16h25. Uma fila o
assusta. No início, bem disciplinada. Perto do guichê, amontoam-se mais de 15
passageiros. Ninguém sabe a ordem. A todo instante, chega um passageiro mais
afoito e pede a alguém que está próximo do atendimento:
– Ê, doido... compra uma
passagem pra mim aí.
Entrega-lhe vinte reais.
– É inteira?
– É.
O tempo passa. O nosso
passageiro aguarda. Chegam dois cobradores de ônibus. Não ficam na fila.
Amontoam-se na frente. Têm preferência, pois vão comprar para 30 passageiros.
São 16h45. Uma buzina avisa
que o ferry está para sair.
A fila anda um pouco.
São 16h55. O nosso passageiro
chega bem perto do guichê. Pode ouvir os diálogos dos que estão em atendimento.
Uma passageira pede duas
inteiras e uma meia, pois tem uma colega que é professora.
O atendente avisa:
– São vinte e cinco, moça.
Ela diz que vai pagar com pix.
O atendente mostra o QR
Code.
Só aí ela percebe que precisa
colocar o celular em dados móveis, pois estava sem... A internet da Claro
demora um pouco. Chega o 2G... 3... finalmente o 5. Hora de digitar o valor:
– Quanto é o valor, moço?
– Vinte e cinco.
Ela digita. E coloca a senha.
Uma espera. 30 segundos.
Finalmente.
– Obrigada.
Mais uma passageira chega.
– Me dá três passagens. Uma
inteira, uma meia e uma de criança.
– Quantos anos tem essa
criança.
– Cinco anos.
– Dá dezessete reais.
– Certo.
– É dinheiro, moça?
– Cartão de crédito.
Ele digita o valor numa
maquininha e entrega para a passageira. Ela coloca o cartão. Demora um pouco
para a máquina fazer a leitura. Vem a senha. A passageira não se lembra bem,
porque o cartão não é dela, é da mãe. Pega o celular e grava um áudio.
– Mamãe, deixa eu lhe dizer:
eu tô aqui comprando as passagens do ferry e esqueci a senha do cartão.
Me manda rápido. Tô aqui na fila.
Uma espera que parece de
minutos. Talvez seja.
Finalmente chega uma mensagem
no celular da passageira.
Não era da mãe. Era de uma
amiga convidando para o pré-carnaval de Brandão
na Litorânea, já que em Pinheiro não tem nem bloquinho de criança.
Mais uns instantes.
Finalmente chega a mensagem da mãe. Era a data de nascimento da passageira.
Ela ri e diz ao atendente.
– Tô doidinha aqui.
Finalmente as passagens lhe
chegam às mãos.
São 17h12. Ufa! O nosso
passageiro, com uma nota de dez reais toda dobrada e suada nas mãos, chega ao
guichê.
– Uma passagem aí, rápido.
Ainda quero ir nesse ferry.
– Nesse não dá mais. Já
encerrou.
– O quê? Mas eu cheguei aqui
com horário ainda...
– Eu, sei, moço. Mas não
tenho culpa. O senhor vai logo no próximo. É da mesma empresa. Internacional.
– E vai sair que horas?
– É só carregar. Esse é mais
rápido. É menor.
O nosso passageiro entrega a
suada nota de dez reais.
– Me dê uma.
E entrega a nota suada.
– É dez reais..
– Eu sei...
Os olhos do passageiro ficam
vidrados no atendente, que digita uns números no computador.
– Não tem mais passagem de
bloco?
– Que nada, siô. Agora é tudo
moderno. O ferry se modernizou. Isso foi outro tempo. Vinha no
bloquinho. Tudo feito em gráfica. Hoje é diferente. É tirada sistema.
O passageiro aguarda mais uns
segundos.
A pequena impressora começa a
imprimir uma notinha. O atendente entrega a nota, como se fosse um cupom fiscal
de supermercado.
– Cadê a passagem?
– É essa aí. Agora é assim.
O passageiro pega seu bilhete
e sai em direção à rampa de embarque.
Há nele um sentimento de
raiva. Dá vontade de gritar, que essa terra, o Maranhão, é a mais atrasada do Brasil.
Mas se cala. É melhor. Vão me chamar de doido.
Caminha com a sua mochila.
Outra fila à frente. Desta vez para destacar a passagem.
Ele aguarda...
Lembra-se das palavras do
atendente: o ferry se modernizou...
Tempo de espera: IMENSURÁVEL!