segunda-feira, 6 de abril de 2026

O BOLO OU UMA ATIVIDADE ESCOLAR

 

Dino de Alcântara

Sátira Política 

 

A Professora Marta, exausta do trabalho docente, largou os livros e o notebook sobre a mesa e pediu uma narrativa sobre temas variados.

Pela cara dos alunos, a ideia foi recebida de forma péssima, mas... acabaram tendo que fazer. Ia valer pontos na próxima a prova.

Todos odiavam o tal do tema livre. Era a pior coisa que os professores pediam.

No entanto, um aluno, o Ricardo, com cara de insubmisso, meteu a caneta Bic sobre as linhas de uma folha do caderno de matéria e mandou brasa.

Colocou uma família de 7 pessoas, sendo o pai e a mãe e 5 filhos.

Após falar de cada um, trouxe à tona um episódio: um bolo feito com carinho pela mãe e posto na geladeira para a Sexta-Feira da Paixão, dia em que iam receber a avó materna, daí o cuidado da mãe, pois se fosse a avó paterna... cale-te boca.

Feito o bolo na quinta-feira, virou logo motivo de adoração. Todos ali ficaram com água na boca, inclusive o pai.

Todos foram dormir entre 23 horas e 1 hora da madrugada, já na sexta-feira.

Ao acordar, lá pelas oito horas, a mãe levou um susto: o bolo estava quase todo comido. Um pedaço ainda estava na forma, dentro da geladeira. Ela, com raiva, pegou, cortou no meio, tirou um pedaço e comeu. Ficou mais furiosa, ao saber que, gelado, estava muito melhor do que imaginava.

Foi ao quarto, perguntou ao marido se ele tinha comido o bolo. Ele, rindo, disse que tinha tirado um pouquinho só, porque os pequenos, quase todos, tinham comido sozinhos. Ela disse que botaria a mão no fogo pelo mais velho, ao que o pai riu e disse que esse tinha comido o pedaço maior.

Já quase na hora da avó chegar, o filho caçula, que por sinal se atesta com fé que não havia provado do bolo, porque respeitava as ordens da mãe, o filho foi tirar o último pedaço do bolo e colocar num pequeno depósito e, assim, esconder dos glutões da casa, deixando ao menos um naquinho da guloseima para que a visita experimentasse.

Mas, ao fazer isso, a mãe, que estava à espreita, viu tudo. Cresceu pra cima do filho, de quem gostava, mas tinha por ele um amor bem menor do que tinha pelos outros. Tomou-lhe o pedaço, guardou dentro da forma e voltou-se para o “ladrão”, dando-lhe dois cascudos. Os outros viram e atestaram que era ele mesmo o ladrão, que ninguém ali havia comido coisa nenhuma, que o criminoso merecia todas as bordoadas. O pai ainda tentou contornar, mas a mãe pegou uma pequena corda e desferiu-lhe umas cinco ou seis lapadas nas costas e nas pernas. Ele, segundo ela, deveria criar vergonha na cara.

O menino, chorando, ganhou o quarto.

Quanto a avó chegou, trouxe presentes para quase todos. Esqueceu, é claro, do neto ladrão.

...

Ao entregar, primeiro que os outros, a sua narrativa, a professora, mesmo com muita preguiça leu... E, atordoada com o conto. Sim, era um conto, perguntou ao menino se ele tinha tirado aquilo da I.A.

Ele respondeu que nem celular estava levando para a escola. Disse que havia feito de sua cabeça, tomando aqui e ali alguns posts de Instagram e conversas com o pai em casa.

Atônita pela leitura, notou algo estranho: não tinha título.

Indagado, Ricardo pensou um pouco e mandou que ela mesma escrevesse o título.

Perguntado qual era, respondeu sem titubear:

 A JUSTIÇA BRASILEIRA

segunda-feira, 23 de março de 2026

TRÊS NOTINHAS SOBRE PÁGINAS POLICIAIS DO SÉCULO XIX

Dino de Alcântara

  

 Imagem gerada com auxílio da I.A.

NOTINHA I  

São Luís. 10 de janeiro de 1838.  Miquelina, uma mulher parda, escravizada de Joaquina Rosa (que não se apurou quem era) foi detida por guardas. O crime: a dita escravizada lançou no chão do Largo de Santo Antônio imundícies. O jornalista de plantão não entrou em detalhes. Não se sabe se ela fez um xixi na porta da Igreja, na porta de algum figurão da cidade, ou... cala-te, boca... Miquelina não ia ter essa coragem de fazer o que o leitor está pensando. Claro que não. Esse jornalista é patife. Talvez o máximo que a nossa conterrânea quisesse fosse protestar... E, como as autoridades diziam estar punindo os sujões da cidade, e como não conseguiram multar as grandes autoridades, sobrou para a pobre da Miquelina. Oh azar! Mas, também, Miquelina, de dia! Mulher, tu era da pá virada... Tanto mato em São Luís na época... e tu te aliviar no Largo bem à vista de todos? E, comadre... uma perguntinha boba... Não é por mim, que nem tenho essas curiosidades bestas... É pelos outros... Se foi mesmo o número 2... tinha pindoba por lá para fazer a higiene? 

 

NOTINHA II

Outro caso. No Campo de Ourique (hoje Praça Deodoro), um crime comum. Elisário, escravizado de Antônio José Quim, foi visto e preso na mesma hora em que atirava pedras numa barraca. Agora, para quê? O preguiçoso do escrivão de polícia registrava as ocorrências pela metade. Cabra safado esse escrivão.  Será que o dito Elisário queria meter uma merenda, e a dona da barraca disse que não faria fiado nem para o pai dela? Ou talvez quisesse meter um grode de cachaça, mas ela nem chiba pra ele? Pode ser também caso passional. O sujeitinho estava de caso com a dona da barraca, que lhe deu um pé no traseiro. E ele, para se vingar, atirou-lhe pedras. Foi preso. Bem feito. Não tem nada de atirar pedras nos outros nas ruas, rapaz! Tá doido! Querendo quebrar a cabeça de uma pessoa que nada lhe fez? (pelo menos, acho que não.) Nem em pipiras nas árvores do Campo de Ourique se podem jogar pedras. No máximo se Zé Sarney ou Carlos Brandão estivesse por ali perto da barraca, mas acho que não estava ou se estivessem, poderia errar e acertar a cabeça da pobre vendedora. Merece ao menos um baile de esculhambação.    

 

NOTINHA III 

Abro outra parte do jornal. Um caso que iria direto para o presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, se fosse dentro do CCH, UFMA. Ora, não vou declinar o nome do sujeitinho. Mas acho que todos já sabem. O caso aconteceu em São Luís do Maranhão nos idos de 1838. Um “mulato” de nome Miguel (nome de anjo) era escravizado de um negro liberto, de nome Onofre Antônio de Brito, sujeito metido a brabo, como alguns que andam com a camisa da seleção brasileira. E qual seria o crime do pobre Miguel? Estava vestido com roupa de mulher. De Mulher? Sim. E isso era crime? Não sei, mas foi preso. A questão é que poderia estar fugindo. E Onofre, o seu escravizador, não quis nem saber. Mandou meter na cadeia para aprender a respeitar as leis da pátria. Se viesse hoje à São Luís, ia querer saber: “Ah.. mas... e a Tertuliana Lustosa? Ela pode?” Meu filho, Tertuliana é pesquisadora, funkeira, historiadora... E tem a tal da pedagogia ‘Ensinando com o cu’. Tu não tinha nada disso! Não há como comparar. Era só um homem vestido de mulher na rua. Poderia estar até de corpete e pano na cabeça. Não mudaria nada.  Agora uma pergunta: de quem eram essas roupas. Sim, por que não se acredita que o dito Miguel andasse para cá e para lá com vestidos ou saias. De alguém ele pediu emprestado.  Vai ele ter tomado de empréstimo da mulher do Onofre! Aí a coisa muda de figura! Porque além de ter fugido ainda furtou as peças da patroa... Mas... e se... Não quero nem pensar... Se o caso foi feito nas artimanhas da malandragem? Será que Miguel andava às voltas com a mulher do seu escravizador e, na hora de pegar as calças de riscado, pegou o vestido da pobre mulher e saiu correndo? Não. Isso são coisas de comentaristas do Instagram. Isso é fake News. Miguel não era de bandalheira. Mas o certo é que os jornais não noticiaram a soltura do pobre homem. Será que passou mais de uma manhã na cadeia. Acho que não.

 

desfecho

Esses três casos ocorridos no afamado ano de 1838, todos aqui nesta terrinha (São Luís, Ilha do Amor, ou quase isso) mostram o cenário em que viviam os nossos antepassados, conterrâneos que nos deixaram uma cidade boa para viver (tá bom... quase boa para viver).

 

 

 

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

DINHEIRO E PODER

 Dino de Alcântara

 

Teatrinho a Vapor

 

LÍDIA – Esposa de Itevaldo. Mulher deslumbrante. Tem, no máximo, 40 anos. Vê-se que apresenta características de uma modelo ou ex-modelo.  

ITEVALDO – Senhor idoso, já na casa dos 70 anos, mas com aparência de quase 80. É procurador aposentado.

MANOEL – Rapaz jovem que não pode ver uma mulher bonita que se deixa mergulhar numa fantasia

ANDRÉ – Rapaz jovem. Amigo de Manoel.

 

Cenário: Praça Pedro II.

A cena passa-se em dezembro de 2025.

 

Prólogo: Itevaldo e Lídia caminham pela praça, vendo o Natal Luz de São Luís, com os Palácios dos Leões e de La Ravardière, sede da Prefeitura, bem iluminados. Estão de mãos dadas, o que chama a atenção, pela beleza estonteante da figura feminina, em contraste com aquele senhor que deveria estar em casa brincando com os netos, ou com os bisnetos. Manoel e André veem aquela Helena passeando com um Menelau mais velho que Trump.

MANOEL (Olhando aquela Helena e imaginando que pudesse ser ele, não o velho, o seu marido.) – André, o que que esse cara tem que eu não tenho?

LÍDIA (Que deve ter escutado ou imaginado a indagação daquele moço que nem havia passado em concurso ainda.) Dinheiro!

 

(Os dois baixam a cabeça e saem de fininho da cena).



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O FARDO DO CASAMENTO

 

Dino de Alcântara

 

Teatrinho a Vapor

 

DR. LEOCÁDIO – Desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão. Homem na casa dos 60 anos, é casado, em segundas núpcias, com D. Angélica, que tem idade de ser sua filha.

D. ANGÉLICA – Mulher vivace, astuta, com postura à frente do seu tempo, é casada há 7 anos, com o Dr. Leocádio. Lê tudo o que aparece em sua frente.

FIGURANTES

 

Cenário: Sala da casa do Casal na Rua do Passeio.

A cena passa-se em 1959.

 

PRÓLOGO:  O casal, após o jantar, em que compareceram alguns amigos da política e do judiciário, saboreia um cafezinho e conversa frivolidades da terrinha.

  

DR. LEOCÁDIO (Olhando para os seus amigos do Tribunal de Justiça e para os colegas da Assembleia Legislativa.) Dizia Humberto de Campos... não me lembro em qual livro... Dizia que o casamento é um fardo tão pesado, que precisa de dois para carregá-lo...

D. ANGÉLICA (Num rasgo de sinceridade.) – Às vezes, de três...


O BOLO OU UMA ATIVIDADE ESCOLAR

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