terça-feira, 20 de outubro de 2026

A RÃ E O ESCORPIÃO: uma Fábula Brasileira


Dino de Alcântara

  

 Fábulas de Alcântara

 

 

Um pequeno lago em Alcântara. Bem na margem, há uma Rã descansando. Final de tarde. Na margem do lago, um homem coloca fogo no roçado. Logo as chamas, com a seca das folhas das árvores derrubadas, se alastram por todo o terreno.

Chega, depois de uma longa carreira, um Escorpião, de feição amarelada. Vem com expressão de pânico. Sabe que o fogo vem devorando tudo pela frente. Outros bichos já não vivem mais. Estão mortos pelo fogo.

Ao dar de frente para o lago, se assusta. Não sabe nadar. O que fazer? Morrer queimado ou afogado naquelas águas?

Mas, por sorte, a Rã ainda não partiu. Ainda está vendo o fogo na margem do lago.

Pede socorro à nadadora.

– Por favor, dona Rã, senhora dos lagos, me socorra! Sei que vou morrer queimado, se a senhora não me oferecer um socorro!

A Rã se assusta e se afasta um pouco da margem, com medo de que o venenoso bicho a mate, sem que possa sair dali.

Mas ele insiste, dizendo que jamais faria o mal a quem lhe salvasse a vida.

Ela se aproxima novamente, toda cautelosa, mantendo uma distância segura.

– Não tenha medo! Que poderei fazer, se dependo da senhora? A minha vida está em suas mãos! Não me deixe só!

– O que o senhor quer de mim? – Perguntou a Rã.

Ele, chegando-se mais perto da água:

– Quero que a senhora me leve para o outro lado do lago, porque aqui as chamas me pegarão e me matarão.

A Rã, com medo, afasta-se um pouco novamente. E decide que deve atravessar sozinha o lago.

Mas o Escorpião grita, chora, balança as garras, chamando-a de volta.

E, olhando para trás, descobre que a dor do outro lhe incomoda.  O que fazer? Voltar?

Sim. Voltou, para sorte do Escorpião.

– O senhor jura, por tudo o que é mais sagrado que nenhum mal vai me fazer?

Ele, dando um pequeno sorriso, disse: 

– Mas o que hei de fazer, se nas suas mãos estou?

Ela, certa de que nenhum mal lhe faria, resolve salvar o Escorpião.

– Suba nas minhas costas, segure firme, e vamos!

O Escorpião sobe nas costas da Rã, e ela zarpa em direção a outra margem, salvando a vida dela e a do venenoso invertebrado.

Aquele amarelo no peito do monstrinho ela viu um pouco refletido nas águas. Achou a cor mais bela que o vermelho das flores da beira do lago. Que cor mais linda!

Depois de algum tempo, ela já olhava a margem do lago, com seus capins, flores e tudo mais.

Nesse momento, a Rã passa bem perto de um tronco de árvore que havia caído há tempo. O tronco formava uma espécie de espigão até a margem.

Não havia dúvida... o momento era esse...

Preparando muito bem o seu ferrão, fincou-o na Rã, com vontade, ao mesmo tempo, sem hesitar, saltou sobre o tronco. Estava salvo! Ainda olhou detidamente para a pobre Rãzinha. Era o seu fim! Riu, vendo a pobrezinha aos poucos esmorecer.

Ela, quando sentiu o ferrão, percebeu que havia chegado o seu momento. Tantas e tantas vezes, a sua astúcia lhe tinha livrado do mal, mas agora sucumbia. De nada lhe valera a sua boa astúcia e inteligência! Morreria sem tocar na outra margem. Maldito Escorpião!

Foi perdendo a vista e as forças! Olhou pela última vez o monstrengo que lhe atacara em paga de sua boa ação. Não era o só peito do bicho que estava amarelo. Era todo ele. E não tinha apenas um ferrão. Parecia ter muitos. De repente, mirou bem, forçando pela última vez a vista... 11 ferrões de cada lado!

Na margem verde, havia muitos insetos. Um Gafanhoto comia tranquilamente a folha de uma pindoba. Um Louva-a-deus mirava a cena, com os braços forte erguidos aos céus, à espera do próximo alimento. Uma Libélula voava sobre o capim.

Muitas rãs, de todos os tipos, assistiam inertes a toda a cena. Algumas, bem poucas, com o coração nas mãos, torciam pela pobre irmã. Mas quase todas riam da burrice da Rã.

A maioria das rãs olhava com desprezo a pobrezinha morrendo, e mirava, bem admirada, a valentia do Escorpião. Algumas se imaginavam sendo um escorpião! Como era lindo! E tão forte! 

Ela, perdendo os sentidos, foi afundando, afundando, afund.... 

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