Dino de Alcântara
Sátira Política
A Professora Marta, exausta do trabalho docente, largou os livros e o notebook sobre a mesa e pediu uma narrativa sobre temas variados.
Pela cara dos alunos, a ideia foi recebida de forma péssima, mas... acabaram tendo que fazer. Ia valer pontos na próxima a prova.
Todos odiavam o tal do tema livre. Era a pior coisa que os professores pediam.
No entanto, um aluno, o Ricardo, com cara de insubmisso, meteu a caneta Bic sobre as linhas de uma folha do caderno de matéria e mandou brasa.
Colocou uma família de 7 pessoas, sendo o pai e a mãe e 5 filhos.
Após falar de cada um, trouxe à tona um episódio: um bolo feito com carinho pela mãe e posto na geladeira para a Sexta-Feira da Paixão, dia em que iam receber a avó materna, daí o cuidado da mãe, pois se fosse a avó paterna... cale-te boca.
Feito o bolo na quinta-feira, virou logo motivo de adoração. Todos ali ficaram com água na boca, inclusive o pai.
Todos foram dormir entre 23 horas e 1 hora da madrugada, já na sexta-feira.
Ao acordar, lá pelas oito horas, a mãe levou um susto: o bolo estava quase todo comido. Um pedaço ainda estava na forma, dentro da geladeira. Ela, com raiva, pegou, cortou no meio, tirou um pedaço e comeu. Ficou mais furiosa, ao saber que, gelado, estava muito melhor do que imaginava.
Foi ao quarto, perguntou ao marido se ele tinha comido o bolo. Ele, rindo, disse que tinha tirado um pouquinho só, porque os pequenos, quase todos, tinham comido sozinhos. Ela disse que botaria a mão no fogo pelo mais velho, ao que o pai riu e disse que esse tinha comido o pedaço maior.
Já quase na hora da avó chegar, o filho caçula, que por sinal se atesta com fé que não havia provado do bolo, porque respeitava as ordens da mãe, o filho foi tirar o último pedaço do bolo e colocar num pequeno depósito e, assim, esconder dos glutões da casa, deixando ao menos um naquinho da guloseima para que a visita experimentasse.
Mas, ao fazer isso, a mãe, que estava à espreita, viu tudo. Cresceu pra cima do filho, de quem gostava, mas tinha por ele um amor bem menor do que tinha pelos outros. Tomou-lhe o pedaço, guardou dentro da forma e voltou-se para o “ladrão”, dando-lhe dois cascudos. Os outros viram e atestaram que era ele mesmo o ladrão, que ninguém ali havia comido coisa nenhuma, que o criminoso merecia todas as bordoadas. O pai ainda tentou contornar, mas a mãe pegou uma pequena corda e desferiu-lhe umas cinco ou seis lapadas nas costas e nas pernas. Ele, segundo ela, deveria criar vergonha na cara.
O menino, chorando, ganhou o quarto.
Quanto a avó chegou, trouxe presentes para quase todos. Esqueceu, é claro, do neto ladrão.
...
Ao entregar, primeiro que os outros, a sua narrativa, a professora, mesmo com muita preguiça leu... E, atordoada com o conto. Sim, era um conto, perguntou ao menino se ele tinha tirado aquilo da I.A.
Ele respondeu que nem celular estava levando para a escola. Disse que havia feito de sua cabeça, tomando aqui e ali alguns posts de Instagram e conversas com o pai em casa.
Atônita pela leitura, notou algo estranho: não tinha título.
Indagado, Ricardo pensou um pouco e mandou que ela mesma escrevesse o título.
Perguntado qual era, respondeu sem titubear:
A JUSTIÇA BRASILEIRA
