segunda-feira, 15 de abril de 2024

O ACOMPANHANTE


  

Dino de Alcântara

Porta de uma padaria famosa do Renascença. Ao abrir a porta do seu carro, o desembargador aposentado Gomes Torreão, já quase setentão, mas com os neurônios mandando aviso de que não tinha ainda completado os sessenta,  dá de cara com três jovens: um rapaz e duas meninas que fariam rivalidade com as mais belas musas dos poetas do Século XIX.

Olhou para as duas garotas – na casa de seus 19, 20 anos – e depois para um flanelinha, já mais para lá do que para cá – em termos de idade.

– Olha – disse-lhe o flanelinha –, o que me falta é dinheiro, porque coragem eu tenho de sobra.

Torreão entrou na onda:

– O que esse cara tem que nós não temos?

– A juventude.

Meio triste, o magistrado foi obrigado a concordar com o seu interlocutor.

– Mas ele pode ser apenas o arroz! – avaliou o guardador de carros.

– Arroz?

– Sim. Só o acompanhante!

 

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Teatrinho a Vapor: JUÍZOS MATERNOS

  

Dino de Alcântara

MANOEL – Tenente-Coronel do Exército, 62 anos. Casado, em terceiras núpcias, com Ritinha, uma alcantarense de 18 anos, muito formosa, mas com uma expressão capaz de tornar os olhos de Capitu sem nenhum significado. Não teve filhos nem com a primeira, nem com a segunda esposa, o que levou a mãe a desconfiar seriamente de que o seu filhinho fosse de fato estéril.

DONA JUDITE – Mãe de Manoel, bem idosa, já passando dos 85 anos, bem vividos e profunda conhecedora das almas maranhenses, as boas e as más. Ao botar os olhos na Ritinha, comentou até com o filho que aquela daria nó até em azeite.

Cenário: Casa de Dona Judite, na Rua Gonçalves Dias, na Madre Deus!

A cena passa-se em 1948.

MANOEL – (Com alegria estampada no rosto.) – Mamãe, trago uma notícia boa!

DONA JUDITE – O que foi?! Te deram um aumento?!

MANOEL – Não. Muito melhor?

DONA JUDITE – ?

MANOEL – A Ritinha está grávida!

DONA JUDITE – Grávida? Como foi isso? E tu já sabe quem é o pai?


 

segunda-feira, 1 de abril de 2024

DIÁLOGOS ESCOLÁSTICOS OU QUASE ISSO

 

Dino de Alcântara

 

Os professores de hoje reconhecem que, em tecnologia, não conseguem ensinar nada aos seus alunos. Ao contrário, são eles os mestres. Dão conta de tudo, desde um simples ajuste no datashow, até instalar programas dos quais jamais havíamos ouvido falar.

Mas uma professora de Bacuri teve que reconhecer, um dia depois do show de Manu Batidão na cidade, que os seus alunos estão avançados em muitos outros assuntos, além da tecnologia. São sabidos também em matérias que comumente não se ensinam nas salas de aula das escolas públicas. Explica-se melhor o fato: a dita professora, na hora do intervalo, presenciou, meio que por acaso, uma conversa entre dois alunos seus – um de 10 anos e outro de 9 – sobre um objeto, digamos insólito, pelo menos numa escola, como se disse, de Bacuri.


 ALUNO MAIS VELHO – Ei, doido, diz-que a tia da limpeza achou hoje de manhã uma camisinha usada no pátio da escola.

 ALUNO MAIS NOVO – O que, rapá?

ALUNO MAIS VELHO – Hum... Vai dizer que tu não sabe o que é camisinha?


 ALUNO MAIS NOVO – Isso eu sei, doido. Quero saber o que é pátio.

O CAÇADOR DE COMUNISTAS

  Dino de Alcântara     A Stanislaw Ponte Preta   Corria o ano de 1971, com tensões de lado a lado (tanto da situação quanto da oposição...