segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

AML OU IML?

 

Dino de Alcântara

 

Teatrinho a Vapor 

 

A Neres, que me narrou esse episódio, num sonho, estando ele disfarçado de Zé Sarney. Minto. Não foi sonho. Foi pesadelo. Ele (Neres) estava até de bigode.

 


CATULO – Professor do IEMA. É bastante dedicado à Literatura.

DONA GERTRUDES – Mãe de Catulo. Está um pouco surda e com Alzheimer, embora não esqueça do filho querido, que, aliás, mora com ela.

LOURIVAL – Presidente da AML.  

 

Cenário: Salão nobre da Academia Maranhense de Letras.

A cena passa-se em 2024.

 

PRÓLOGO: Lourival Serejo está fazendo uma conferência sobre o grande escritor tcheco no Salão da AML, celebrando o centenário do autor de O Processo. Na plateia, bem na frente, está o professor Catulo. Embora a organização do evento tenha pedido que os celulares ficassem no modo silencioso, o docente do IEMA não o fez, por uma razão: a mãezinha poderia precisar dele. Caso de doença permite algumas afrontas às etiquetas. Na cadeira ao lado, está José Neres, Mauro Vieira e Linda Barros. Quando o conferencista discorre sobre um tema presente no autor: “personagens com missões aterrorizantes”, o celular de Catulo toca, num volume mais alto do que manda a etiqueta. Ele atende.  

 

CATULOAlô! Mãe?

DONA GERTRUDES ...

CATULOO que foi?

DONA GERTRUDES ...

CATULOSenhora, estou aqui na AML.

DONA GERTRUDES ...


CATULO (Pronunciando cada fonema como se fosse um vocábulo.) – A M L.

DONA GERTRUDES ...

DONA GERTRUDES Não, senhora. Não é IML. É AML. Academia Maranhense de Letras. Estou aqui. Vou já embora.

(Diante de olhares reprovadores do conferencista e de quase todos os ouvintes, Catulo desliga o celular e se retira do salão. Dizem as más línguas, que foi com a cara arrastando no chão.)

 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

O ESGULEPE DA ILHA

 DINO DE ALCÂNTARA

 ESBOÇO DE CONTO

 

 

Seu Egídio, morador de uma porta e janela da Rua das Afogados, tinha uma particularidade ou patologia – para ser mais sincero na qualificação – que a todos os que o viam assustava: era o nariz. Mas não era um nariz qualquer. Era um senhor nariz, daqueles em que nenhum caricaturista conseguiu desenhar, nem mesmos aqueles que ampliavam consideravelmente os órgãos do corpo humano.

Em São Luís dos anos 50 e 60, seu Egídio era um farejador de comida boa nas casas a cujos donos era familiar. Diziam sempre, que à hora do almoço, se ele batesse em alguma casa, era com certeza para se deliciar com alguma iguaria.  E os frutos do mar eram o seu ponto fraco. E o dono ou a dona da casa não conseguia se livrar, porque se abrissem a porta, já o nariz do glutão estava dentro da cozinha, sentindo o cheirinho do arroz de cuxá, da torta de caranguejo, do camarão frito no azeite de coco, do peixe frito, do siri, do sururu ao leite de coco, etc.

Certa feita, em casa de Gregório Maracajá, na Fonte das Pedras, na celebração do aniversário de 7 anos de Mariquinhas, foi só abrirem a porta, que logo soube que haveria um banquete, com uma camaroada ao leite de coco como prato principal. Sentou-se à mesa antes dos donos. Já com uma colher na mão. E, quando a cozinheira, dona Santoca, pôs o caldo no prato para fazer o pirão (que ele adorava), não teve cerimônia com a farinha d’água. Botou até o pirão ficar seco. Dona Santoca, vendo a farinha dominar a cena, pôs mais caldo, e ele mais farinha; ela mais caldo, ele mais farinha. Nisso, o pirão foi aumentando. Dizia ele que um pirão não podia ser nem seco nem muito molhado. Assim, nessa tentativa de encontrar o ponto certo, o caboco (por sinal, o diabo era de Alcântara) meteu um pirão tão grande na pança com uma pratada de camarão branco, mais ainda uma boa posta de curijuba pescado no Espinhel de Zé Mole, mais ainda um bom pedaço de torta de caranguejo e muito mais.

Quando chegou a sobremesa, já o nosso Egídio não conseguia por nem mais o suco de cajazinho na boca. A comida parecia estar na garganta, porque não havia mais espaço no estômago.

Foi preciso o dono da casa, Gregório Maracajá e dona Santoca levantarem o homem, que começou a passar mal. Os pulmões foram comprimidos pelo estômago.

Correram atrás de Mundoca Fala Fraco, ali na Farmácia do Povo, para ver se o homem acudia.

O farmacêutico chegou esbaforido. Examinou a cena e, descobrindo que havia uma quantidade enorme de farinha no ventre do glutão, teve uma ideia rápida:  meteram o esgulepe dentro do tanque de água para que a farinha se acomodasse e não inchasse tanto no estômago, tomando o espaço dos outros órgãos, levando-o ao cajueirinho (leia-se cemitério).

Foi tiro e queda. Duas horas depois, saía de dentro do tanque, escritinho um pinto molhado, com os beiços até roxos, seu Egídio. Dizem as más línguas que estava com a cara arrastando no chão.

Pediu desculpas aos donos da casa e fez um pedido: que aquilo ficasse em segredo, que não fosse motivo de conversa na praça.

Até hoje, ninguém sabe quem foi o linguarudo que saiu espalhando a notícia na cidade. Na Garapeira de Guará, era o que se falava naqueles dias que se seguiram.

Quando seu Egídio ia ao Mercado Central ou à casa de Gregório Maracajá, não passava na Praça João Lisboa, que não queria atirar pedra em quem gritasse:

– Lá vai o Esgulepe!   

   

 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

LILOCA OU UMA MENTIRA SÓ NÃO FAZ MAL

 Dino de Alcântara

Teatrinho a Vapor

 

ZÉ PEDRO – Professor de Literatura da Rede Pública de Ensino do Maranhão. Era casado com Liloca, mas acabou de se divorciar, deixando para a ex-esposa um naco do seu parco salário como docente do Colégio Gonçalves Dias.

LILOCA – Ex-esposa de Zé Pedro. É bem mais nova que o docente secundarista, quase vinte anos de diferença.

 

Cenário: Escadarias do Fórum que leva o nome do pai de Zé Sarney.

A cena passa-se em 2014.

 

Prólogo: Os dois haviam se casado no mesmo Fórum em 2010 e na Igreja da Cohab, onde o professor morava. Ela, na hora em que o vigário perguntou se aceitava, ela disse um sim muito baixo... Mas... tudo bem. O padre, ao final, disse: “O que Deus uniu, o homem não separa!” Mas um caboco do Anjo da Guarda desafiou as palavras do Vigário e separou o que Deus havia unido. Agora os dois estão descendo as escadarias; ele com cara inchada porque vai pagar uma pequena pensão para ela morar com o dito caboco. Ela sorridente.

 

ZÉ PEDRO (Segurando o braço dela, para que o olhasse nos olhos.) – Só me diz uma coisa...

LILOCAO quê?

ZÉ PEDRONa igreja, tu não disseste que me amavas e era para sempre o nosso casamento?

LILOCA (Com a cara mais cínica do mundo, ao mesmo tempo em que dá um risinho malicioso.) – Eu menti!

O CAÇADOR DE COMUNISTAS

  Dino de Alcântara     A Stanislaw Ponte Preta   Corria o ano de 1971, com tensões de lado a lado (tanto da situação quanto da oposição...