segunda-feira, 18 de novembro de 2024

PENA DE PASSARINHO

  Dino de Alcântara

 Teatrinho a Vapor



O PASSARINHO
A PASSARINHA
O DIABINHO DE UM MOLEQUE

Cenário: Galho de uma ingazeira e de um jutaizeiro (jabobazeiro).

A cena passa-se nas matas do Cujupe.


Prólogo: Estão um passarinho e uma passarinha num galho de ingazeira. Ele todo inclinado para copular com ela, pois sabe que está no tempo do acasalamento. Ela ainda está se decidindo quem fecundará os seus ovinhos. Quando, de repente, aparece um diabinho em forma de menino e atira uma pedra certeira. Pega bem nas costas do passarinho. Ela se espanta e voa, pousando num galho de um jutaizeiro, mais alto. Ele tomba, perde meia dúzia de penas, mas consegue recuperar o voo e pousa ao lado dela.


O PASSARINHO (Chegando-se para ela, já com terceiras intenções.) – Tu ficou com pena, não foi?

A   PASSARINHA (Rindo, como se a situação fosse cômica.) – Claro! Não perdi nenhuma. Agora tu... quase fica pelado!








segunda-feira, 11 de novembro de 2024

A ALMA DO NEGÓCIO

 Dino de Alcântara

 Teatrinho a Vapor

 

MABÍLIA – Representante comercial da Herbalife. Anda com uma camisa da empresa com uma frase que chama a atenção por onde passa. Tem uma característica que a distingue de outros vendedores: pesa 155 quilos.

CLIENTES DO BANCO

 

Cenário: Agência do Banco Itaú – Renascença.

 

A cena passa-se em novembro de 2004.

 

PRÓLOGO: Mabília tenta entrar no banco. A porta trava. Ela precisa tirar vários itens da bolsa. Trava novamente. Tira mais itens. Até a bolsinha de moedas. O celular, as chaves, tudo. A porta, com a ajuda do guarda, destrava. Ela fica quase entalada. Mas, com esforço, consegue entrar. Todos os clientes e funcionários a observam.

MABÍLIA (Entrando na fila para ser atendida no caixa normal.) – Boa tarde!

ALGUNS CLIENTES – Boa tarde.

(Só aí, com espanto nos olhos, os clientes e os funcionários conseguem ler o que está escrito na blusa da representante da Herbalife. Um risinho malicioso parece contagiar os lábios dos clientes e dos bancários, indo até o gerente.)

Se você quiser emagrecer, fale comigo.

 

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

O MACACO ROUBADO

 

Dino de Alcântara

Essa história correu de boca em boca. Parecia até fuxico encomendado. Ouvi de Muringa, que disse ter ouvido de Zé Mole, que disse ter ouvido de Bonsó, que disse ter ouvido de Pato Cagado, que não contou de quem ouvira. Então fique o leitor sabendo que pode ter sido diferente do que vai ser contado.  

Diz-que um caboco do Cujupe, dono de um caminhão, já bastante surrado nas estradas de Alcântara, que, aliás, não estão entre as melhores do Maranhão, mas isso é outra história, que não cabe aqui, foi vítima de um roubo infame. Numa manhã, que sucedeu a uma festa na casa de Bertoldo, com muito reggae e cerveja, além do famoso conhaque São João da Barra, com o já citado Pato Cagado bêbado de não se aguentar em pé, fora usurpado... O caminhão do dito caboco amanheceu sem uma peça obrigatória: o macaco. 

Sim. Fora esbulhado. E quem havia roubado era quem estava na festa. Sim. Na certa. Agora era hora de tratar de descobrir quem havia feito um diabo desse. E quem sabe meter uma faca no bucho!

Ficara tão brabo o Mané Preá (esse era o nome do dono do Caminhão), que não queria comprar outro macaco, mesmo Lafantico tendo lhe oferecido um por 80 reais. Não. Queria era aquele. Ia pegar o macaco e depois meter a faca no ladrão. 

Para isso, ouvindo um conselho da boca de Jirijó, procurou um curador lá para as bandas do São Raimundo. Sim, senhor. Pagaria até 300 reais para o homem, desde que ele dissesse onde estava o macaco. Ia lá, pegava o objeto e sangrava o salafrário.

Agora, ali diante do curador, um homem velho, já na casa dos 70 anos, com um bigode ralo, rosto franzino, estava ansioso para descobrir quem era o canalha. Antes de sangrar o homem, ia dar uns bogues bem dados, até quebrar a cara toda dele.

O curador, depois de receber cinquenta reais, pediu licença e foi até outro quarto, segundo ele, para falar com os encantados.

O caboco ficou esperando bem uns vinte, trinta minutos. Até que o homem voltou. Veio com rosto diferente, parecendo que havia tomado uns grodes de cachaça Pitú. Olhos vermelhos de dá medo, no dizer de Tralhoto.

– Siô, já se sabe quem roubou o macaco.

– Pois, então me conte logo, que quero ir lá agora, pegar o bicho e sangrar o ladrão.

– Não vai dar.

– Por quê?

– Quem roubou não está mais aqui perto.

– E por onde tá?

– De Bequimão pra lá.

– Mas me diga onde está, siô... onde está o macaco?

– O macaco não existe mais.

– Como assim, siô? O que aconteceu?

– Já foi comido no leite de coco!


 

 

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

LEITE NA BOQUINHA

  Dino de Alcântara


É capaz de Neres pular nesse texto pensando se tratar de um algum miniconto estilo Airton Souza ou Bioque Mesito. Nada. Passará longe. Trata-se de um quase defunto, que, felizmente não foi dessa que foi carregado para o Cajueirinho do Cujupe.

Vamos ao fato e deixemos a vida de Bioque com seus poemas e Airton Souza com seus garimpeiros em Serra Pelada fazendo saliência...

Aconteceu em meados dos anos 70 ou 80... Agora não me lembro, porque me contaram, e eu não gravei... coisas da idade.

Diz-que que um caboco de nome Moscote estava numa fraqueza que só. Nem se levantava mais da rede. O penico já ficava ali perto, porque não conseguia ir até o quintal aliviar a bexiga. Deram de tudo para ele, até chá de cana-da-índia, e o homem não melhorava. Foi aí que Zé Preá veio com a solução, que tinha botado Benedito Rato bonzinho de uma maleita braba. Era tomar leite materno. Era tiro e queda.

Boca de Sapo foi o encarregado de ir atrás. Achou a comadre Tereza, com os peitos, que a natureza lhe dera, capaz de fazer qualquer mulher dos Estados Unidos morrer de inveja.

Comadre Tereza chegou. Moscote só aí foi saber do que se tratava. Abriu bem os olhos para mirar direito. 

Trouxeram uma colher daquelas de mexer canjica. Comadre Tereza arriou a alça do vestido, tirou o corpete e botou o seio esquerdo para fora. Até Cento-e-Trinta que estava perto do jirau veio para perto... para espiar.

A cada puxada, o leite espirrava longe. Via-se que a comadre não tinha muita prática. Nunca havia doado leite dessa forma. Uma gota caía dentro da colher e o restante fora. Até dentro do olho de Moscote chegou a cair.

Moscote passou a mão no olho, mirou bem no peito da comadre e soltou esta frase, que entrou para os anais histórico-anedotários de Alcântara:

– Assim num vai... eu morro e num bebo nadinha. Não é melhor botar direto na boca, como se faz com criança?

 

O CAÇADOR DE COMUNISTAS

  Dino de Alcântara     A Stanislaw Ponte Preta   Corria o ano de 1971, com tensões de lado a lado (tanto da situação quanto da oposição...