segunda-feira, 24 de novembro de 2025

SAÍDA PELA DIREITA

 

 Dino de Alcântara

 

Depois da megaoperação no Rio de Janeiro, que culminou com a morte de mais de 120 pessoas, uma professora, depois de um dia inteiro de choro, ligações, procuras, encontrou finalmente o filho de 15 anos. Estava ferido, mas não corria perigo. Estava numa casa na Penha.

Trouxe o filho para casa e cuidou dele. Nem foi preciso levar a uma UPA. Isso foi bom, porque iam querer saber o que tinha acontecido.

Uma semana depois, já recuperado dos ferimentos, a professora e mãe teve uma longa conversa com o filho.

Disse a ele que mudasse de vida, que a que ele estava levando não ia durar muito. Ou ia morrer ou viver num presídio.

O filho ouviu atentamente a mãe. Ela havia conseguido um emprego para ele num mercadinho da Penha. Ele estudaria de noite e trabalharia de tarde. Das 14h às 18h. Não teria carteira assinada porque não tinha 16 anos ainda. Ganharia 900,00 por mês.

Ele se levantou e disse à mãe que isso era troco pra ele. Que nunca ia se matar de trabalhar num mercadinho para ganhar essa merreca.

A mãe insistiu, mas o filho disse que, trabalhando com os caras, ele comia carne todo dia, metia cerveja gelada toda noite e ganhava 1.000,00 por semana. E a mãe, numa última cartada, disse a ele que nessa vida não teria 4 anos.

Ele pensou um pouco e disse que preferia viver apenas dois anos na fartura a viver cem anos como ela, sofrendo como uma desgraçada.

Ela chorou amargamente, ele saiu, ganhando a rua. Olhou para esquerda. Deu com o beco, estreito, que levava para o tal mercadinho. Olhou para a direita e viu uma ruela bem mais larga que o beco. Caminhou por ela. Foi para onde estavam os chefes do tráfico.

 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

UM QUIPROQUÓ NA VILA PALMEIRA

 Dino de Alcântara

 MINICONTO 

 


Dizia o professor Zé Praxedes, do Liceu Maranhense, que o Padre Antônio Vieira, quando olhava dois maranhenses conversando na rua, costumava afirmar que a mentira estava correndo solta, sem prumo.

Não se sabe se isso é fato ou ficção do docente liceísta, mas há quem diga que na Vila Palmeira, quando duas mulheres estão conversando na porta da rua, podemos apostar que não é conversa para crianças inocentes.

Mas dona Lilica, moradora do famoso bairro, com o marido cheio de afazeres nos bares da vida, retruca essa informação falsa. Segundo ela, quem costuma contar mentiras no Maranhão são os homens. As mulheres só falam a verdade.

De fato, numa noite de junho de 2023, com os arraiais em chamas nos quatro cantos de São Luís, estava dona Lilica conversando com Dona Cocota na porta da rua, como sempre gostava de fazer. Dizia que as novelas de hoje não têm mais graça nenhuma. A melhor coisa que se faz é conversar com os vizinhos.  

Lá pelas tantas, o marido de Dona Lilica atrás de índias de boi, nada de chegar em casa, a boa esposa afirmou à vizinha:

DONA LILICA – Sabe, Dona Cocota, o diabo quando atrasa deixa a gente morta de preocupação.

DONA COCOTA – É, Dona Lilica. É verdade.

DONA LILICA – A gente começa logo a pensar no pior.

DONA COCOTA – É hoje está tão difícil de se criar!

DONA LILICA – Mas quando chega é aquele incômodo!

DONA COCOTA – Oh, se é. E olhe que na minha época é que era difícil. Não se tinha essas modernidades. Hoje tá fácil!

DONA LILICA – Nossa, quando chega, dá até dor de cabeça! Eu estou para não aguentar mais.

DONA COCOTA – Aguenta, a gente aguenta. Mas atrasa muito?

DONA LILICA – Ora se não.

DONA COCOTA – E quando vem, derrama muito?

DONA LILICA – Só quando bebe demais, aí é toda hora no banheiro.

DONA COCOTA – Banheiro? Então não usa modes?

DONA LILICA – Modes? De que a senhora está falando?

DONA COCOTA – Não é de menstruação?

DONA LILICA – Que nada! Estou me referindo ao meu marido: Quando atrasa, é uma preocupação; mas, quando chega, é um incômodo danado!

 

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

AULA DE GEOGRAFIA

 Dino de Alcântara

 Teatrinho a Vapor

 


THYAGO – Aluno de Letras e, nas horas vagas, professor particular de Gabriel, um aluno do Anjo da Guarda.

GABRIEL – Aluno do sexto ano de uma escola particular do Anjo da Guarda. Tem métodos pedagógicos ortodoxos na hora de estudar.

Cenário: Terraço da casa de Gabriel no Anjo da Guarda.

Thyago está revisando, no livro didático de Geografia do aluno, a parte sobre o semiárido nordestino. Como gosta de explorar bastante, aproveita para falar sobre todos os Estados envolvidos nesse terrível mal, que é a seca. O aluno, no entanto, tem uma metodologia própria: a decoração. Decora tudo, mas não entende muito bem o que decorou.

THYAGO – Agora, Gabriel, com o livro fechado, me responde: onde está o semiárido?

GABRIEL (Forçando a memória.) – É... o semiárido? O negócio da seca?

THYAGO – Isso. Me diga...

GABRIEL (Com os olhos brilhando.) – Fica na página 75.

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Trovinha para AUGUSTO DOS ANJOS

  Dino de Alcântara


TROVINHA

 


AUGUSTO DOS ANJOS:

“Se, numa tardinha qualquer,

O amor vier me procurar,

Diga a esse monstro de fé

Que fui embora do meu lar!”

 

TRÊS NOTINHAS SOBRE PÁGINAS POLICIAIS DO SÉCULO XIX

Dino de Alcântara      Imagem gerada com auxílio da I.A. NOTINHA I   São Luís.  10 de janeiro de 1838.  Miquelina, uma mulher parda, escravi...