Dino de Alcântara
Depois da megaoperação no Rio de Janeiro, que culminou com a morte de mais de 120 pessoas, uma professora, depois de um dia inteiro de choro, ligações, procuras, encontrou finalmente o filho de 15 anos. Estava ferido, mas não corria perigo. Estava numa casa na Penha.
Trouxe o filho para casa e cuidou dele. Nem foi preciso levar a uma UPA. Isso foi bom, porque iam querer saber o que tinha acontecido.
Uma semana depois, já recuperado dos ferimentos, a professora e mãe teve uma longa conversa com o filho.
Disse a ele que mudasse de vida, que a que ele estava levando não ia durar muito. Ou ia morrer ou viver num presídio.
O filho ouviu atentamente a mãe. Ela havia conseguido um emprego para ele num mercadinho da Penha. Ele estudaria de noite e trabalharia de tarde. Das 14h às 18h. Não teria carteira assinada porque não tinha 16 anos ainda. Ganharia 900,00 por mês.
Ele se levantou e disse à mãe que isso era troco pra ele. Que nunca ia se matar de trabalhar num mercadinho para ganhar essa merreca.
A mãe insistiu, mas o filho disse que, trabalhando com os caras, ele comia carne todo dia, metia cerveja gelada toda noite e ganhava 1.000,00 por semana. E a mãe, numa última cartada, disse a ele que nessa vida não teria 4 anos.
Ele pensou um pouco e disse que preferia viver apenas dois anos na fartura a viver cem anos como ela, sofrendo como uma desgraçada.
Ela chorou amargamente, ele saiu, ganhando a rua. Olhou para esquerda. Deu com o beco, estreito, que levava para o tal mercadinho. Olhou para a direita e viu uma ruela bem mais larga que o beco. Caminhou por ela. Foi para onde estavam os chefes do tráfico.

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