segunda-feira, 23 de março de 2026

TRÊS NOTINHAS SOBRE PÁGINAS POLICIAIS DO SÉCULO XIX

Dino de Alcântara

  

 Imagem gerada com auxílio da I.A.

NOTINHA I  

São Luís. 10 de janeiro de 1838.  Miquelina, uma mulher parda, escravizada de Joaquina Rosa (que não se apurou quem era) foi detida por guardas. O crime: a dita escravizada lançou no chão do Largo de Santo Antônio imundícies. O jornalista de plantão não entrou em detalhes. Não se sabe se ela fez um xixi na porta da Igreja, na porta de algum figurão da cidade, ou... cala-te, boca... Miquelina não ia ter essa coragem de fazer o que o leitor está pensando. Claro que não. Esse jornalista é patife. Talvez o máximo que a nossa conterrânea quisesse fosse protestar... E, como as autoridades diziam estar punindo os sujões da cidade, e como não conseguiram multar as grandes autoridades, sobrou para a pobre da Miquelina. Oh azar! Mas, também, Miquelina, de dia! Mulher, tu era da pá virada... Tanto mato em São Luís na época... e tu te aliviar no Largo bem à vista de todos? E, comadre... uma perguntinha boba... Não é por mim, que nem tenho essas curiosidades bestas... É pelos outros... Se foi mesmo o número 2... tinha pindoba por lá para fazer a higiene? 

 

NOTINHA II

Outro caso. No Campo de Ourique (hoje Praça Deodoro), um crime comum. Elisário, escravizado de Antônio José Quim, foi visto e preso na mesma hora em que atirava pedras numa barraca. Agora, para quê? O preguiçoso do escrivão de polícia registrava as ocorrências pela metade. Cabra safado esse escrivão.  Será que o dito Elisário queria meter uma merenda, e a dona da barraca disse que não faria fiado nem para o pai dela? Ou talvez quisesse meter um grode de cachaça, mas ela nem chiba pra ele? Pode ser também caso passional. O sujeitinho estava de caso com a dona da barraca, que lhe deu um pé no traseiro. E ele, para se vingar, atirou-lhe pedras. Foi preso. Bem feito. Não tem nada de atirar pedras nos outros nas ruas, rapaz! Tá doido! Querendo quebrar a cabeça de uma pessoa que nada lhe fez? (pelo menos, acho que não.) Nem em pipiras nas árvores do Campo de Ourique se podem jogar pedras. No máximo se Zé Sarney ou Carlos Brandão estivesse por ali perto da barraca, mas acho que não estava ou se estivessem, poderia errar e acertar a cabeça da pobre vendedora. Merece ao menos um baile de esculhambação.    

 

NOTINHA III 

Abro outra parte do jornal. Um caso que iria direto para o presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, se fosse dentro do CCH, UFMA. Ora, não vou declinar o nome do sujeitinho. Mas acho que todos já sabem. O caso aconteceu em São Luís do Maranhão nos idos de 1838. Um “mulato” de nome Miguel (nome de anjo) era escravizado de um negro liberto, de nome Onofre Antônio de Brito, sujeito metido a brabo, como alguns que andam com a camisa da seleção brasileira. E qual seria o crime do pobre Miguel? Estava vestido com roupa de mulher. De Mulher? Sim. E isso era crime? Não sei, mas foi preso. A questão é que poderia estar fugindo. E Onofre, o seu escravizador, não quis nem saber. Mandou meter na cadeia para aprender a respeitar as leis da pátria. Se viesse hoje à São Luís, ia querer saber: “Ah.. mas... e a Tertuliana Lustosa? Ela pode?” Meu filho, Tertuliana é pesquisadora, funkeira, historiadora... E tem a tal da pedagogia ‘Ensinando com o cu’. Tu não tinha nada disso! Não há como comparar. Era só um homem vestido de mulher na rua. Poderia estar até de corpete e pano na cabeça. Não mudaria nada.  Agora uma pergunta: de quem eram essas roupas. Sim, por que não se acredita que o dito Miguel andasse para cá e para lá com vestidos ou saias. De alguém ele pediu emprestado.  Vai ele ter tomado de empréstimo da mulher do Onofre! Aí a coisa muda de figura! Porque além de ter fugido ainda furtou as peças da patroa... Mas... e se... Não quero nem pensar... Se o caso foi feito nas artimanhas da malandragem? Será que Miguel andava às voltas com a mulher do seu escravizador e, na hora de pegar as calças de riscado, pegou o vestido da pobre mulher e saiu correndo? Não. Isso são coisas de comentaristas do Instagram. Isso é fake News. Miguel não era de bandalheira. Mas o certo é que os jornais não noticiaram a soltura do pobre homem. Será que passou mais de uma manhã na cadeia. Acho que não.

 

desfecho

Esses três casos ocorridos no afamado ano de 1838, todos aqui nesta terrinha (São Luís, Ilha do Amor, ou quase isso) mostram o cenário em que viviam os nossos antepassados, conterrâneos que nos deixaram uma cidade boa para viver (tá bom... quase boa para viver).

 

 

 

 

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