Quando a enfermeira de olhos bem pretos veio lhe chamar para atender a um rapaz que tinha sido atropelado por um carro, o doutor Vico levantou-se rápido de sua mesa e correu até a área de urgência.
– É grave o estado do rapaz?
– Não, doutor. Algumas escoriações e um joelho que precisa examinar. Deve ter os ossos duros que só. Mas o senhor precisa ver.
– Sim. Vou examinar.
– Tudo bem.
– E os parentes dele já foram avisados?
– Doutor, ele disse que não tem parentes próximos.
– Como assim?
– Foi o que ele disse.
O doutor chega até o paciente.
– Doutor, fui atropelado. Quase morro. Se não me bazungasse em cima da calçada, estaria durinho agora.
O Doutor riu.
– E você viu quem foi?
– Só sei que era uma mulher, vindo desembestada daqui do Socorrão. Me pegou bem no Canto da Viração.
O doutor examina-o com cuidado. Depois de uns minutos:
– O joelho pegou uma pancada grande... Precisamos examinar direitinho. Talvez seja apenas o caso de se enfaixar.
– Doutor, quer dizer que eu vou ficar aqui a manhã todinha.
O doutor riu. Depois, sério:
– A enfermeira me disse que você não tem parentes próximos.
– Doutor, é isso mesmo. Não tenho parentes próximos mais. Até tinha um tio aqui, mas morreu ano passado.
– Nem irmãos?
– Que nada! Moro numa pensão, doutor.
– E de onde eram os seus pais?
– Eram não. São. Não morreram ainda. Estão vivinhos.
– Mas não acabou de dizer que não tinha parentes próximos...
– Próximos, não. Papai e mamãe moram é longe. Em Codó, siô.

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