segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

SEM PARENTES

 Dino de Alcântara

 

 Quando a enfermeira de olhos bem pretos veio lhe chamar para atender a um rapaz que tinha sido atropelado por um carro, o doutor Vico levantou-se rápido de sua mesa e correu até a área de urgência.

– É grave o estado do rapaz?

– Não, doutor. Algumas escoriações e um joelho que precisa examinar. Deve ter os ossos duros que só. Mas o senhor precisa ver.

– Sim. Vou examinar.

– Tudo bem.

– E os parentes dele já foram avisados?

– Doutor, ele disse que não tem parentes próximos.

– Como assim?

– Foi o que ele disse.

O doutor chega até o paciente.

– Doutor, fui atropelado. Quase morro. Se não me bazungasse em cima da calçada, estaria durinho agora.

O Doutor riu.

– E você viu quem foi?

– Só sei que era uma mulher, vindo desembestada daqui do Socorrão. Me pegou bem no Canto da Viração. 

O doutor examina-o com cuidado. Depois de uns minutos:

– O joelho pegou uma pancada grande... Precisamos examinar direitinho. Talvez seja apenas o caso de se enfaixar.

– Doutor, quer dizer que eu vou ficar aqui a manhã todinha.

O doutor riu. Depois, sério:

– A enfermeira me disse que você não tem parentes próximos.

– Doutor, é isso mesmo. Não tenho parentes próximos mais. Até tinha um tio aqui, mas morreu ano passado.

– Nem irmãos?

– Que nada! Moro numa pensão, doutor.

– E de onde eram os seus pais?

– Eram não. São. Não morreram ainda. Estão vivinhos.

– Mas não acabou de dizer que não tinha parentes próximos...

– Próximos, não. Papai e mamãe moram é longe. Em Codó, siô.

 

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