segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

UMA CABEÇA TÓXICA

Dino de Alcântara

 


Na sala de aula da Universidade Federal do Maranhão, a professora Nilcal Pinto chega com uma expressão de irritação.

Faz logo a chamada, para pôr faltas nos alunos que ainda estavam metidos nos ônibus do campus.

Uma aluna, a Jerusa, afirma que muitos ainda não estão na sala e que a docente poderia aguardar mais alguns minutos.

Ela, a docente, finge não ouvir. E continua.

Na metade da aula, a docente, mais irritada ainda que quando entrou, desfere uma série de impropérios contra os alunos, que eles não estudam, que a carreira de professor é só para loucos, que eles fazem muito bem em procurar outro curso, que não a licenciatura.

E os alunos escutando aquele desabafo.

– Esta universidade é toda tóxica. O nosso curso, então, o que dizer... Aqui a gente adoece é cedo, meus queridos. Não tem irmandade, nem humanidade. Aqui é cada um por si.  

Diante dos olhares de todos:

– Se botassem paredes em volta do campus, viraria um hospício isso aqui. – E ri-se, sozinha.

– Mas, professora... – tenta contornar a situação a Jerusa.

– O que, Jerusa? – Interrompe a aluna. – Aqui não tem jeito. É tudo muito tóxico.

– Mas, professora, desculpa em lhe dizer isto:

– O quê, minha filha?

– Me perdoe...

– Pode falar...

A aluna deve ter acabado de ler A Luneta Mágica, de Joaquim Manuel de Macedo.

– E não será a sua cabeça?

– O que tem a minha cabeça?

E diante dos olhares de todos os alunos:

– Que é tóxica?

 

UMA CABEÇA TÓXICA

Dino de Alcântara   Na sala de aula da Universidade Federal do Maranhão, a professora Nilcal Pinto chega com uma expressão de irritação. ...