Dino de Alcântara
CONTO-ANEDOTA
Depois de um espetáculo a que o desembargador Raimundo Pinto Soeiro assistiu no Teatro São Luís, um encontro o fez, pela primeira vez naquela noite de setembro de 1908, sorrir à larga. É que viu diante si, descendo as escadarias do lado oposto, o seu velho amigo, também desembargador, só que aposentado havia uns 5 anos.
– Gongon!
– Mundico!
E os dois – Dr. Raimundo Pinto e Dr. Gonçalo Abelha – se abraçaram e deram tapinhas nas costas.
Só aí o Dr. Raimundo percebeu que o colega de magistratura estava com ar mais jovial, feliz, como se tivesse ganhado uma bolada na loteria.
Mas não era um sortudo da loteria. Meia hora depois, no Largo do Carmo, no Café Athenas, depois de uma cerveja Guarani, a mais apreciada pela elite de São Luís, o velho Gonçalo, do alto dos seus 68 anos, contava ao amigo que havia se casado com uma mocinha de 19 anos.
– Uma flor que colhi – disse ele – quando mal o botão se abrira num dos jardins da velha Pompeia.
Um parêntese. O Dr. Gonçalo Abelha, amigo de infância e de escola do Dr. Pinto – ambos estudaram no Liceu Maranhense –, era o único desembargador que tinha dois apelidos: Dr. Zangão e Dr. Ferrão – este último por conta de uma característica conhecida entre os mais íntimos, que não cabe aqui revelar.
Voltando ao Café Athenas... Depois da terceira cerveja e de uns camarões fritos, veio mais uma revelação: a flor de Alcântara tinha sido fertilizada por uma abelha, ou melhor, por um zangão de quase 70 anos.
O desembargador Raimundo Pinto certamente deve ter pensado em abelhas, zangões, ferrões e, claro, na idade avançada de seu colega... e, como sempre teve uma língua maior que a média dos maranhenses, aproximou-se o máximo que pode do colega:
– Grávida?
E, diante da afirmação do velho magistrado:
– E tu desconfias de alguém?


