segunda-feira, 27 de outubro de 2025

DESCONFIANÇA

 Dino de Alcântara

 CONTO-ANEDOTA

 

Depois de um espetáculo a que o desembargador Raimundo Pinto Soeiro assistiu no Teatro São Luís, um encontro o fez, pela primeira vez naquela noite de setembro de 1908, sorrir à larga. É que viu diante si, descendo as escadarias do lado oposto, o seu velho amigo, também desembargador, só que aposentado havia uns 5 anos.

– Gongon!

– Mundico!

E os dois – Dr. Raimundo Pinto e Dr. Gonçalo Abelha – se abraçaram e deram tapinhas nas costas.

Só aí o Dr. Raimundo percebeu que o colega de magistratura estava com ar mais jovial, feliz, como se tivesse ganhado uma bolada na loteria.

Mas não era um sortudo da loteria. Meia hora depois, no Largo do Carmo, no Café Athenas, depois de uma cerveja Guarani, a mais apreciada pela elite de São Luís, o velho Gonçalo, do alto dos seus 68 anos, contava ao amigo que havia se casado com uma mocinha de 19 anos.

– Uma flor que colhi – disse ele – quando mal o botão se abrira num dos jardins da velha Pompeia.

Um parêntese. O Dr. Gonçalo Abelha, amigo de infância e de escola do Dr. Pinto – ambos estudaram no Liceu Maranhense –, era o único desembargador que tinha dois apelidos: Dr. Zangão e Dr. Ferrão – este último por conta de uma característica conhecida entre os mais íntimos, que não cabe aqui revelar.

Voltando ao Café Athenas... Depois da terceira cerveja e de uns camarões fritos, veio mais uma revelação: a flor de Alcântara tinha sido fertilizada por uma abelha, ou melhor, por um zangão de quase 70 anos.

O desembargador Raimundo Pinto certamente deve ter pensado em abelhas, zangões, ferrões e, claro, na idade avançada de seu colega... e, como sempre teve uma língua maior que a média dos maranhenses, aproximou-se o máximo que pode do colega:

– Grávida?

E, diante da afirmação do velho magistrado:

– E tu desconfias de alguém?

 

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

HULK, O MALANDRO

 Dino de Alcântara

 

Não se sabe quem botou esse nome, mas o certo era que Hulk crescera ouvindo chamá-lo assim.

Morador do Cohatrac, desde que fora adotado por uma senhora idosa, vivia pelas ruas com total liberdade, só vindo para casa, por conta da comidinha e do leito macio que a sua tutora (sim, ele era um cão) dispunha para ele.

Tinha verdadeira adoração por perseguir carros e motos, sobretudo os vermelhos. Gostava também de correr e morder crianças nas bicicletas de rodinhas.

Na Avenida Leste-Oeste, mordera um morador, por ter ralhado com ele. Ora, se não estava fazendo nada, porque diabos tinha sido xingado? Mordeu, sim, e à traição, enquanto o homem abria o portão da casa. Nesse dia, quase o pegam. Teve que sair correndo. O homem, com a coxa sangrando, pegou um cacete e correu atrás. Teve que se esconder numa padaria, até que o homem deixasse a vingança de lado e procurasse uma UPA.

Viver nas ruas tinha um gosto da liberdade, mas era, muitas vezes, muito arriscado.

Havia três dias que ele, por pouco, não tinha ido para o mundo dos mortos. Estava na avenida, quando viu do outro lado, uma moto vermelha. Não pensou duas vezes. Correu para atravessar a avenida. Vinha um carro conduzido por uma mulher. Ele ainda sentiu o baque, a dor, mas felizmente ela era do tipo que protegia os animais. Até levava ração e água no carro para botar para os animaizinhos de rua. Ela levou um susto, desviou o carro a tempo, subindo na calçada, atropelando uma criança numa bicicleta.

Graças a Deus, disse a condutora, depois, num áudio num grupo de WhatsApp, que não acontecera nada com o animalzinho.

E a criança... bem a criança está internada ainda no Socorrão II, mas está bem. Só precisando de uma pequena cirurgia. Vai ficar sem sequelas.

Quanto a Hulk... ele passou ontem correndo atrás de uma moto vermelha!   

  

 

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

OS SAPATOS

 

Dino de Alcântara

 

Teatrinho a Vapor

 


DR. ANTUNES – Advogado. Possui dois pares de sapatos, um preto e um marrom. O preto está novinho, ao passo que o marrom está bastante gasto pelo tempo e pelas ruas de São Luís, que – na época – não eram bem cuidadas.

MANELINHO – Criado. Rapaz de seus 16 anos. É português de família bem pobre que para o Maranhão emigrou em busca de melhores condições de vida. Tem uma característica acentuada: os neurônios ainda não se desenvolveram de forma satisfatória... Ainda está tentando entender o que um B e um A produzem de som.  


Cenário: Sobrado da casa do Dr. Antunes, na Rua do Sol, quase já perto da Rua de São João.


A cena passa-se em novembro de 1907.


PRÓLOGO: Vestindo-se para ir ao Tribunal de Justiça do Maranhão, na Avenida Maranhense, por conta de uma audiência, o Dr. Antunes manda que o criado vá até o quintal e traga os sapatos, que, depois de uma boa graxa, estavam “pegando um ventinho...” E, antes que lhe fosse explicado quais – se os pretos ou os marrons –, Manelinho sai desembestado na carreira em demanda dos pisantes.

 

DR. ANTUNES (Quase gritando.) – Oh, Manelinho, traz os novos...

MANELINHO (Trazendo o pé direito preto e o pé esquerdo marrom.) – Está aqui, senhor.

DR. ANTUNES (Observando.) – Mas o que é isso?

MANELINHO – Isso o quê, seu Antunes?

DR. ANTUNES – Tu me trouxeste um sapato de cada cor! Vai pegar o outro.

(Manelinho desce as escadas correndo e retorna com as mãos vazias.)

MANELINHO – Senhor...

DR. ANTUNES – O quê, Manelinho?

MANELINHO – Os que ficaram lá são do mesmo jeito: um de cada cor.

 

UMA CABEÇA TÓXICA

Dino de Alcântara   Na sala de aula da Universidade Federal do Maranhão, a professora Nilcal Pinto chega com uma expressão de irritação. ...